A estreia de Tremembé segue um roteiro que o Brasil já conhece, mas se recusa a admitir: tragédias reais são transformadas em espetáculo — e nós assistimos como quem consome puro entretenimento. Horas depois do lançamento, a série já ocupava o topo. Milhões assistindo. Milhões comentando. Milhões alimentando o mesmo vício cultural: a glamurização do crime.
O fenômeno diz menos sobre as criminosas retratadas e muito mais sobre nós, espectadores. Em um país onde gente comum batalha anos para ser vista, viraliza quem matou, enganou, enganou de novo — e ainda encontra na internet uma plateia sedenta. Não é coincidência: é padrão.
Enquanto profissionais, artistas e criadores lutam diariamente por reconhecimento, assassinas deixam a prisão com mais engajamento que muitos empreendedores de uma vida inteira. Suzane conquistou 100 mil seguidores em dias. Produtos esgotados. Comentários chamando de “rainha”. O direito ao trabalho existe — a coroa digital, não. Quem entrega essa coroa? A audiência.
Seguimos criminosas não pela reflexão, mas pela adrenalina. Pelo fascínio do proibido. Pela sombra que evitamos olhar em nós mesmos. A idolatria não é sobre elas — é sobre a nossa própria distorção emocional.
A aparição de Elize também expôs algo que preferimos varrer pra debaixo do tapete. Milhares de mulheres comentaram: “fez foi pouco”, “mereceu”, “faria igual”. Isso não é empoderamento. É trauma. É raiva crônica transformada em meme. É o país onde dor mal resolvida vira slogan de força.
Hoje, assassinato virou estética. Vingança virou conteúdo. Crime virou narrativa. Tremembé não exibiu apenas criminosas — exibiu a fome coletiva pelo caos. O algoritmo entrega, o público consome e, no fim, ninguém assume responsabilidade.
A criminosa trabalhar não é o problema. O problema é a sociedade transformar dor em entretenimento, sangue em storyline e tragédia em curtida. O problema é seguirmos repetindo: “é só um conteúdo”.
Tremembé abriu uma ferida que sempre existiu, só estava filtrada: estamos viciados na violência.
E diante disso, a pergunta final não é sobre elas.
É sobre nós.
O que isso diz sobre quem estamos nos tornando?







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