Iniciativa municipal combina infraestrutura, monitoramento e educação ambiental e já contabiliza milhares de travessias seguras de animais silvestres no perímetro urbano
A presença recorrente de animais silvestres cruzando vias urbanas em Alta Floresta, no norte de Mato Grosso, acendeu um alerta entre moradores e gestores públicos e motivou a criação do programa Alta Floresta Não Atropela, iniciativa municipal voltada à redução de atropelamentos e à reconexão de fragmentos florestais em áreas urbanas.
Implementado em outubro de 2024, o programa reúne ações de infraestrutura, monitoramento e educação ambiental para garantir travessias seguras à fauna. Relatórios divulgados pela prefeitura indicam que, até maio de 2025, foram registradas 3.943 travessias seguras, envolvendo mais de dez espécies, entre primatas, roedores e marsupiais arborícolas.
As câmeras instaladas nas chamadas pontes de dossel — estruturas aéreas que permitem a travessia de animais sem contato com o asfalto — registraram grupos de primatas utilizando os corredores suspensos para cruzar vias de tráfego intenso. Os dados reforçam a efetividade das intervenções e subsidiam o planejamento das próximas etapas do programa.
Com o aumento do uso das estruturas, também foram identificados novos pontos críticos de atropelamento no perímetro urbano, o que levou à ampliação das ações. Além das pontes de dossel, o Alta Floresta Não Atropela inclui sinalização específica, redutores de velocidade e adequações em bueiros, facilitando a circulação de espécies terrestres.
As intervenções foram definidas a partir de levantamentos técnicos e do mapeamento das rotas mais utilizadas pela fauna. O conjunto de medidas integra o primeiro Plano Urbano de Mitigação da Amazônia brasileira a incorporar soluções específicas para reduzir atropelamentos de animais silvestres e promover a reconexão de fragmentos florestais em ambiente urbano.
A Secretaria Municipal de Meio Ambiente informa que o plano foi estruturado com base em análises técnicas e no acompanhamento especializado do comportamento da fauna, resultando em uma abordagem integrada de conservação ambiental e planejamento urbano.
Parcerias e monitoramento contínuo
O programa é sustentado por uma rede de cooperação que envolve órgãos ambientais estaduais, universidades, institutos de pesquisa, organizações da sociedade civil e empresas privadas. Essa articulação tem permitido ampliar o alcance das ações e fortalecer o monitoramento das áreas de risco.
Atualizações trimestrais apontam que, em um período de quatro meses, mais de 1,8 mil travessias seguras foram contabilizadas por meio de registros automáticos e observações em campo. As informações alimentam um painel de monitoramento, que reúne mapas, gráficos e imagens das travessias e orienta a definição de novos pontos de intervenção.
Além da infraestrutura, o Alta Floresta Não Atropela investe em campanhas educativas direcionadas a motoristas, estudantes e moradores de regiões próximas aos corredores de travessia, com foco na redução da velocidade e na atenção redobrada em vias que cortam áreas arborizadas.
Reconhecimento, expansão e próximos passos
Com os resultados alcançados, o programa passou a ganhar destaque na imprensa regional e nacional. Alta Floresta abriga 12 espécies de primatas, das quais sete estão ameaçadas de extinção, e registra, segundo dados do Corpo de Bombeiros, ao menos um atropelamento de primata por dia no perímetro urbano — cenário que o programa busca reverter.
Inspirado, entre outros fatores, pela recente descoberta do zogue-zogue-de-Alta-Floresta, espécie já ameaçada de extinção, o projeto prevê a ampliação do número de pontes de dossel e a implantação de passagens subterrâneas voltadas à travessia de animais de médio e grande porte, como antas, capivaras, tatus e tamanduás.
Mesmo com os avanços, técnicos envolvidos no monitoramento apontam que o comportamento dos motoristas ainda representa um dos principais fatores de risco, o que reforça a necessidade de ampliar as ações educativas e a fiscalização de velocidade em áreas sensíveis.
A gestão municipal afirma que a continuidade do Alta Floresta Não Atropela depende do engajamento da população e da manutenção permanente das estruturas instaladas. A expectativa é que o programa mantenha a tendência de redução de riscos e se consolide como referência para outros municípios que enfrentam desafios semelhantes na convivência entre áreas urbanas e fauna silvestre.







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