Promovido pelo Instituto Sustentar, em parceria com a Verdelho Comunicação, o webinário “Fauna nas Estradas: Risco de Vida para Animais e Pessoas” reuniu, nos dias 13, 14 e 15 de maio, alguns dos maiores especialistas do Brasil para discutir os impactos das rodovias sobre a fauna silvestre e propor formas de mitigação para esse grave problema.

O evento contou com o apoio das seguintes instituições: ICAS – Instituto de Conservação de Animais Silvestres, UNEMAT – Universidade do Estado de Mato Grosso, REET Brasil – Rede de Especialistas em Ecologia de Transportes, Instituto SOS Pantanal, Observatório Rodovias Seguras para Todos e Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias (ABCR).
No primeiro dia, durante o painel “Perdas e Danos”, um dos palestrantes foi Alex Bager, professor da UFLA e CEO da EnvironBIT, que abordou o tema “Ecologia de Estradas – tendências e pesquisas sobre animais atropelados”.
Abaixo, o resumo de sua palestra:
De pontos isolados à proteção contínua: um novo caminho para a ecologia de estradas no brasil

O Brasil abriga uma das maiores malhas rodoviárias do mundo, com cerca de 1,2 milhão de quilômetros atravessando diferentes biomas. Nesse cenário, estima-se que ocorram mais de 470 milhões de atropelamentos de animais por ano, com impactos significativos sobre a biodiversidade, a sociedade e a economia.
Os custos sociais e econômicos desses acidentes — que envolvem tanto fauna quanto pessoas — são expressivos: aproximadamente R$ 20 bilhões anuais, com prejuízos individuais que podem ultrapassar R$ 800 mil por vítima. Fica claro, portanto, que a ecologia de estradas vai muito além da proteção animal. Trata-se de um tema que envolve infraestrutura, saúde pública, logística, segurança e desenvolvimento sustentável.
Historicamente, as ações de mitigação têm se concentrado nos chamados hotspots — trechos com alta incidência de atropelamentos. No entanto, esse conceito apresenta limitações críticas. Hotspots são variáveis no tempo e espaço, mudam conforme a espécie, o clima, o comportamento individual e até o período do ano, o que torna arriscado basear estratégias de conservação apenas em registros históricos. Há uma ilusão de segurança ao proteger um ponto que pode deixar de ser relevante pouco tempo depois.
Além disso, os métodos de levantamento são falhos: geralmente realizados a 50–60 km/h e considerando apenas animais com mais de 1 kg, o que subestima a real dimensão do problema e compromete a qualidade das decisões. Diversos estudos demonstram que a forma como se identifica um hotspot altera significativamente os locais apontados como prioritários, e que a maioria das intervenções feitas com base nesse modelo não passa por avaliações rigorosas de eficácia.
Um estudo global analisando 313 artigos revelou que apenas 14% conseguiram comprovar que suas ações de mitigação foram realmente efetivas em restaurar processos ecológicos. Ou seja, seguimos investindo em estruturas sem saber, de fato, se estão funcionando.
Diante desse cenário, a apresentação propõe uma mudança de paradigma: abandonar a centralidade do conceito de hotspot e avançar para a lógica de “quilômetros de proteção”. Isso significa pensar na proteção contínua da rodovia como um todo, considerando a complexidade do movimento da fauna e a variabilidade dos riscos ao longo do tempo.
Essa nova abordagem exige o uso de tecnologia, dados confiáveis e inteligência artificial para fornecer alertas dinâmicos e orientar tomadas de decisão. Um exemplo concreto é o aplicativo Usafe, que funciona como um “Waze da biodiversidade”. Ele identifica trechos de risco em tempo real e alerta motoristas, reduzindo em até 12% os atropelamentos em trechos monitorados — com impactos positivos para concessionárias, condutores e a fauna silvestre.
Outra inovação importante é a criação dos chamados créditos de biodiversidade, uma métrica que quantifica vidas salvas com base na redução de risco, podendo ser utilizada em políticas públicas, programas de incentivo e relatórios de sustentabilidade, especialmente no setor logístico.
Além disso, a plataforma Inova Via, desenvolvida em parceria com o governo de Minas Gerais, permitirá que empreendedores, técnicos e gestores acessem, em tempo real: os pontos críticos de atropelamento, as espécies mais vulneráveis em cada trecho, e as ações de mitigação com maior potencial de sucesso, de forma personalizada.
Casos reais demonstram que soluções bem planejadas e integradas funcionam. Em Doutor Pedrinho (SC), por exemplo, foram construídas 32 passagens de fauna em 60 km de rodovia, com cercas de condução e monitoramento constante. O resultado? Índices mínimos de atropelamento, mesmo em uma região de alta biodiversidade.
A mensagem final é clara: passagens de fauna são essenciais, mas não podem ser tratadas como soluções isoladas. É necessário integrá-las a redes de cercas, sistemas de alerta, monitoramento constante e protocolos adaptativos — sempre baseados em dados e evidências. A conservação eficaz exige que as medidas sejam testadas, avaliadas e ajustadas constantemente.
A ecologia de estradas precisa evoluir. O cenário atual exige ações amplas, coordenadas, tecnológicas e baseadas em evidências científicas. É hora de superar o modelo reativo dos hotspots e adotar uma abordagem estratégica de proteção contínua, que una conservação da biodiversidade, segurança viária e eficiência econômica.
Para assistir à íntegra do primeiro dia do webinário Fauna nas Estradas, clique aqui.







0 comentários