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Projeto Reconecta une ciência, comunidades e cultura para salvar primatas na Amazônia

por | ago 15, 2025 | Fauna nas Estradas, NOTÍCIAS, SLIDER | 0 Comentários

Promovido pelo Instituto Sustentar, em parceria com a Verdelho Comunicação, o webinário “Fauna nas Estradas: Risco de Vida para Animais e Pessoas” reuniu, nos dias 13, 14 e 15 de maio, alguns dos maiores especialistas do Brasil para discutir os impactos das rodovias sobre a fauna silvestre e propor formas de mitigação para esse grave problema.

Divulgação

O evento contou com o apoio das seguintes instituições: ICAS – Instituto de Conservação de Animais SilvestresUNEMAT – Universidade do Estado de Mato GrossoREET Brasil – Rede de Especialistas em Ecologia de TransportesInstituto SOS PantanalObservatório Rodovias Seguras para Todos e Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias (ABCR).

No primeiro dia, durante o painel “Perdas e Danos”, a última palestrante foi Fernanda Abra, Doutora em Ecologia Aplicada e sócia da VIAFAUNA, referência em ecologia de estradas. Ela apresentou o tema “Projeto Reconecta: Construindo Pontes para a Conservação de Primatas Brasileiros”.

Abaixo, o resumo de sua palestra:

Estruturas elevadas garantem a travessia segura de primatas e representam um gesto de reparação histórica para povos indígenas afetados por rodovias na Amazônia.

Fernanda Abra, Doutora em Ecologia Aplicada e sócia da VIAFAUNA

Fernanda Abra iniciou sua fala durante o Congresso Internacional de Transportes, no Colorado, lembrando que, em 2025, se completam 100 anos da publicação do primeiro artigo científico sobre atropelamento de fauna, veiculado na revista Science em 1925. Apesar do marco centenário, o Brasil começou a tratar seriamente do tema apenas em 1986, evidenciando o quão recente ainda é o entendimento dos impactos causados pelas rodovias e pelo tráfego sobre a fauna silvestre no país.

Durante sua participação no painel sobre perdas e danos, Fernanda optou por apresentar uma abordagem diferente, focada em soluções. Ela trouxe o exemplo do Projeto Reconecta, um trabalho de conservação aplicada que também é tema de seu pós-doutorado em parceria com o Smithsonian. O projeto atua principalmente com espécies estritamente arborícolas, que sofrem intensamente com a fragmentação causada por estradas, já que não descem ao solo para atravessá-las. Para esses animais, a conectividade no nível do dossel é questão de sobrevivência.

O Reconecta tem quatro frentes principais de atuação: (1) diagnóstico do impacto dos atropelamentos, (2) implementação de soluções práticas, (3) monitoramento de conexões naturais no dossel e (4) engajamento das comunidades locais e stakeholders. Uma das áreas de estudo mais importantes é a BR-174, que liga Manaus a Boa Vista, cortando o Território Indígena Waimiri-Atroari. Nessa área de floresta amazônica contínua por 125 km, foram instaladas 32 pontes artificiais de dossel e monitoradas 20 conexões naturais.

A relação com a comunidade Waimiri-Atroari é central para o projeto. Durante a construção da BR-174, na ditadura militar, a população indígena sofreu um genocídio, perdendo cerca de 90% de seus membros. Até hoje, o atropelamento da fauna nessa rodovia é uma ferida aberta para a comunidade, especialmente por conta do sauim-de-mão-dourada, conhecido por eles como Kichiri, que possui valor espiritual e religioso. Eles acreditam que há uma correspondência entre os humanos Waimiri-Atroari e os Aimiriza-Troariz, que seriam esses macacos. Portanto, cada atropelamento representa não só uma perda ecológica, mas também um desrespeito profundo à cultura indígena.

Nesse contexto, o Projeto Reconecta representa mais do que uma medida ambiental: é também uma reparação simbólica e cultural. A participação da comunidade foi decisiva para a construção das pontes, contando com a ajuda de mais de 150 indígenas. As pontes instaladas passaram por testes com dois modelos: um unidimensional (com um cabo de aço trançado) e um bidimensional (com cabos paralelos em “X”). Em 19 meses de monitoramento, foram registradas 829 travessias por oito espécies diferentes, com mais de 90% delas ocorrendo nas pontes unidimensionais — modelo mais compatível com o padrão de locomoção dos primatas locais.

A experiência foi tão significativa que, 30 dias após a instalação da primeira ponte, um Kichiri fez a travessia completa, o que foi motivo de celebração para toda a comunidade. Outro destaque foi a manutenção da vegetação do entorno feita pelos próprios indígenas, com apoio técnico de especialistas como o professor Marcelo Gordo Dauphin, permitindo que as conexões naturais de dossel continuem funcionando. Essas conexões, inclusive, apresentaram quase 4 mil travessias de 23 espécies em apenas seis meses, demonstrando que, quando mantidas, são ainda mais eficazes do que as pontes artificiais.

O projeto também conta com uma segunda área de estudo, em Alta Floresta (MT), dentro do bioma amazônico, mas em uma paisagem urbana e fragmentada. Lá, foram instaladas sete pontes “3 em 1”, com design adaptado para diferentes padrões de locomoção: uma ponte inferior em “X” para espécies quadrúpedes, uma ponte central para espécies que usam preensão (gripping) e uma superior de apoio para aquelas com cauda preênsil. A região abriga 12 espécies de primatas, cinco das quais ameaçadas de extinção. Em apenas sete meses de monitoramento, foram registradas quase 3 mil travessias completas, com destaque para o zog-zog de Alta Floresta (criticamente ameaçado e descrito apenas em 2019) e o mico de Schneider (descrito em 2021), ambos utilizando as pontes.

Os dados obtidos nas duas áreas reforçam hipóteses sobre o uso diferenciado das pontes de acordo com a biomecânica dos animais. Também demonstram que os primatas atravessam em grupo, com comportamento natural e tempo de travessia geralmente inferior a um minuto, embora alguns grupos permaneçam nas pontes por até 30 minutos. A taxa de uso coletivo é alta: 70% das travessias ocorrem em grupos.

O sucesso do projeto levou ao reconhecimento técnico e institucional. O modelo das pontes será publicado em parceria com o Smithsonian e adotado como padrão nacional pelo DNIT. Fernanda também participa da elaboração de um guia global de pontes de dossel, liderado pela Species Survival Commission da IUCN, a ser lançado no Congresso de Primatologia em Madagascar. Além disso, coordena junto ao DNIT a criação de um livro técnico nacional sobre mitigação dos impactos das rodovias na fauna.

Fernanda encerrou sua fala emocionada, destacando o envolvimento de sua equipe multidisciplinar, o apoio das comunidades e o sentimento de realização por conseguir, por meio do Reconecta, unir ciência, ação concreta e respeito à cultura e à espiritualidade de povos originários. O projeto, segundo ela, vai além da conservação da biodiversidade — é também um exercício de reparação histórica e de esperança prática para o futuro.

Para assistir à íntegra do primeiro dia do webinário Fauna nas Estradas, clique aqui.

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