O que está por trás da aversão dos jovens ao trabalho com carteira assinada?
Nos últimos anos, cresceu nas redes sociais e no imaginário coletivo dos jovens uma rejeição quase visceral ao emprego formal, representado pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Mais do que um regime jurídico, ser “CLT” virou meme, ofensa e símbolo de uma vida limitada, com ônibus lotado, broncas de chefe e salários baixos. Mas o que está, de fato, por trás desse fenômeno?
A cultura da precarização
Embora o debate tenha ganhado força nas redes sociais recentemente, essa visão negativa sobre o trabalho formal não é novidade. A antropóloga Rosana Pinheiro-Machado explica que há um legado histórico: “Os empregos no Brasil são, em geral, mal pagos e exigem muito deslocamento. As pessoas se sentem presas e maltratadas”.
Essa percepção se enraizou a ponto de adolescentes usarem o termo “ser CLT” como uma espécie de ofensa entre colegas, como relatou Fabiana Sobrinho, ao flagrar sua filha de 12 anos dizendo: “Vou estudar para não virar um CLT”.
Influencers: o sucesso (aparente) fora da CLT
Enquanto a CLT é associada a sofrimento, o empreendedorismo digital se apresenta como um caminho rápido para liberdade e sucesso. Jovens como Erick Chaves, o “Kinho” do TikTok, e Alejandro Ferreira, dono de uma empresa de marketing digital aos 17 anos, são exemplos desse movimento.
“Quem quer pegar trem lotado para o Brás todo dia, na humilhação?”, provoca Kinho, que deixou o caminho tradicional para viver de conteúdos nas redes.
Mas o sonho vendido na internet contrasta com a realidade: estudo da University College Dublin apontou que apenas 1,4% das contas pequenas no Instagram conseguem romper a barreira dos 5 mil seguidores. Ou seja, a promessa de enriquecer no digital é, para a maioria, uma ilusão.
O risco da demonização
Especialistas alertam que transformar a CLT em vilã alimenta um discurso perigoso, que enfraquece a proteção legal dos trabalhadores. Paulo Fontes, professor da UFRJ, lembra que a CLT nasceu justamente para evitar abusos: “É ilusão achar que atacar a CLT vai gerar direitos. É o contrário”.
Ainda assim, a precarização e as novas formas de trabalho pressionam os jovens a buscar alternativas. Muitos, como Bruna Neres, que trocou o emprego formal pelo empreendedorismo, buscam flexibilidade e maiores rendimentos.
Mas, segundo o FGV Ibre, a maior parte dos autônomos ainda atua por necessidade: 45% dos trabalhadores por conta própria não escolheram esse caminho, mas foram empurrados por falta de opção.
A ilusão do sucesso fácil
A antropóloga Rosana Pinheiro-Machado destaca o papel dos influencers na construção desse imaginário. Eles vendem a ideia de que “rasgar a carteira” é o primeiro passo para o sucesso, mas na prática, a maioria enfrenta frustração, baixa autoestima e autoculpa.
“Parece que o influencer está perto, mostrando a casa dele. Mas há uma distância imensa da nossa realidade”, pontua.
Alejandro, que largou a escola para empreender, reconhece: “Nada é certo. É impossível vender uma fórmula milagrosa do sucesso”.
CLT: reformar ou desprezar?
Para os especialistas, a luta não deve ser contra a CLT, mas pela sua modernização e valorização. A pesquisadora Rosana reforça: “Precisamos passar a mensagem de que trabalhar, estudar e se qualificar vale a pena. É assim que os países mais desenvolvidos fazem”.
Por outro lado, a idealização do empreendedorismo sem estrutura e proteção pode acentuar a precarização das relações de trabalho e aumentar a desigualdade.
O desafio? Reconstruir a imagem do trabalho formal e criar condições dignas para que ele volte a ser visto, não como um castigo, mas como um caminho legítimo para a autonomia e o bem-estar.







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