Promovido pelo Instituto Sustentar, em parceria com a Verdelho Comunicação, o webinário “Fauna nas Estradas: Risco de Vida para Animais e Pessoas” reuniu, nos dias 13, 14 e 15 de maio, alguns dos maiores especialistas do Brasil para discutir os impactos das rodovias sobre a fauna silvestre e propor formas de mitigação para esse grave problema.

O evento contou com o apoio das seguintes instituições: ICAS – Instituto de Conservação de Animais Silvestres, UNEMAT – Universidade do Estado de Mato Grosso, REET Brasil – Rede de Especialistas em Ecologia de Transportes, Instituto SOS Pantanal, Observatório Rodovias Seguras para Todos e Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias (ABCR).
No painel Experiências que dão certo, a última palestrante foi Mariana Labão Catapani, bióloga, mestre em Ecologia e doutora em Ciência Ambiental. Pesquisadora do Instituto de Conservação de Animais Silvestres e integrante do grupo de especialistas em conflito e coexistência da IUCN, apresentou a palestra “Avaliação e aprimoramento das Sinalizações de Travessia de Fauna”.
Abaixo, o resumo de sua palestra:
Efetividade da Sinalização de Travessia de Fauna nas Rodovias Brasileiras: Lições do Projeto Bandeiras e Rodovias

Na palestra ministrada durante o webinar “Experiências que Dão Certo”, a bióloga e pesquisadora Mariana Labão Catapani apresentou um estudo aprofundado sobre a efetividade das sinalizações de travessia de fauna nas rodovias brasileiras, com foco especial nas placas de advertência e seu impacto no comportamento de motoristas. Com doutorado em Ciência Ambiental pela USP, no Programa de Ciência Ambiental (Procam), Mariana iniciou sua fala destacando que a sinalização por placas é a medida de mitigação mais amplamente utilizada para evitar colisões com animais silvestres — especialmente por ser barata, acessível e de fácil instalação e manutenção. No entanto, os poucos estudos existentes indicam que essa estratégia é pouco efetiva para reduzir acidentes.
A partir do projeto “Bandeiras e Rodovias”, foi desenvolvido um estudo para avaliar a efetividade dessas placas e compreender como torná-las mais eficientes. Mariana explicou que, de acordo com o Manual Brasileiro de Sinalização de Trânsito, as placas são classificadas por função e cor, com destaque para as amarelas, que têm função de advertência, podendo indicar tanto situações permanentes (como curvas acentuadas) quanto eventuais (como a travessia de animais). O grande desafio das situações eventuais é justamente sua imprecisão temporal e espacial, o que dificulta a motivação do condutor a adotar um comportamento de cautela.
A placa padrão para indicar travessia de fauna é a A36 — conhecida como “placa do veadinho” — cujo objetivo é alertar para a possibilidade de presença de animais e estimular a redução de velocidade e/ou aumento de atenção. Contudo, Mariana ressalta que, para que uma sinalização funcione, ela precisa ser percebida, compreendida e gerar uma resposta comportamental. A psicologia cognitiva, segundo ela, é uma ferramenta essencial nesse processo, pois ajuda a entender como os motoristas processam e reagem aos estímulos visuais das placas.
O estudo conduzido foi interdisciplinar e dividido em duas frentes principais. A primeira foi um experimento de campo na BR-262 (entre Campo Grande e Corumbá, no Pantanal sul-mato-grossense), onde foi medida a velocidade real de mais de 5 mil veículos diante de quatro tipos de placas: a A36, uma com mensagem educativa (“Proteja os animais do Pantanal”), uma comunicando risco (“Animais silvestres na pista”) e uma placa controle sem relação com fauna. A medição foi feita em sete pontos ao longo de uma zona experimental. A segunda frente consistiu em 88 entrevistas semiestruturadas com motoristas, com o objetivo de avaliar atenção, compreensão, motivação e intenção comportamental diante das placas, além de testes exploratórios de conceitos visuais.
Os resultados apontaram que o comportamento dos motoristas está fortemente relacionado à percepção de risco, que envolve a avaliação subjetiva da probabilidade de um evento acontecer e do impacto caso ocorra. Quando o risco é percebido como baixo ou incerto, os condutores tendem a não mudar seu comportamento. A placa A36, por exemplo, foi percebida como ineficaz por muitos entrevistados, por ser comum demais e parecer genérica, o que gera desconfiança sobre sua relevância no local onde está instalada. Em contraste, placas que indicam com mais precisão trechos com alto índice de colisões ou delimitam claramente uma área de risco foram consideradas mais confiáveis.
Outro destaque foi o papel dos elementos visuais. Apesar da silhueta do veadinho da A36 não ser considerada impactante, os entrevistados relataram que desenhos são mais facilmente notados e compreendidos do que mensagens apenas textuais. O desenho mais bem avaliado nos testes foi o de uma simulação de colisão entre um animal de grande porte e um veículo, por gerar uma percepção imediata de perigo. Mariana também enfatizou que placas muito informativas ou vagas demais — como “proteja os animais” — tendem a gerar confusão ou desinteresse, além de desresponsabilizar as administradoras das rodovias, ao transferir a proteção da fauna somente para os usuários.
O excesso de placas ao longo das estradas também se mostrou contraproducente, gerando um efeito de “saturação” visual que faz com que motoristas deixem de prestar atenção individualmente em cada uma. Diante disso, Mariana e sua equipe organizaram um workshop multidisciplinar com especialistas de várias áreas, incluindo psicologia, design, publicidade e biologia da conservação, para desenvolver uma nova placa de sinalização mais eficaz.
A nova placa incorporou conceitos de processamento visual rápido, imagens dinâmicas (consideradas mais eficientes do que estáticas para percepção de risco), clareza na comunicação e adaptação à fauna local — com a silhueta do veado-campeiro, espécie nativa do Brasil. Após autorização do DNIT, a nova placa foi instalada experimentalmente na mesma rodovia BR-262, substituindo as antigas, e foi realizado um novo experimento com mais de dois mil veículos. Os resultados mostraram uma redução média de 5,4% na velocidade dos veículos, chegando a 6,4% nos caminhões e até 16% nos caminhões ao amanhecer. Em comparação, a placa A36 havia provocado um aumento de 1% na velocidade média — evidenciando sua baixa efetividade.
Além disso, foram realizadas 119 novas entrevistas, nas quais 95% dos condutores afirmaram que a placa com simulação de colisão os motivava a adotar maior cautela. Com base nesses resultados, Mariana e sua equipe elaboraram um relatório para o DNIT com recomendações, como a adoção da nova sinalização em áreas críticas, associada à indicação espacial do risco (ex: “nos próximos 5 km”), conforme previsto no Código de Trânsito Brasileiro.
No entanto, Mariana enfatizou que a sinalização, por mais eficaz que seja, não substitui as medidas mais eficientes, como cercas e passagens de fauna, que impedem fisicamente o acesso dos animais à pista. A sinalização deve ser usada em conjunto com essas estruturas, já que, mesmo com atenção redobrada, a reação do motorista a um animal na pista pode não ser suficiente para evitar uma colisão. Por fim, defendeu o monitoramento contínuo da efetividade das ações e destacou a importância de embasar políticas públicas e decisões de gestão com dados científicos e da participação de múltiplos atores desde o início dos projetos.
Mariana Labão Catapani – Bióloga, mestre em Ecologia e doutora em Ciência Ambiental. Pesquisadora interdisciplinar, dedicada ao estudo das dimensões humanas da conservação da vida silvestre e da coexistência entre humanos e fauna. Coordena as iniciativas de pesquisa social do Instituto de Conservação de Animais Silvestres e integra o grupo de especialistas em conflito e coexistência da IUCN.
Para assistir à íntegra o segundo dia do webinário Fauna nas Estradas, clique aqui.







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