Um mergulho na mente criativa, provocadora e sensível de uma das maiores artistas sul-mato-grossenses do século XX. Assim pode ser definida a exposição “As várias faces de Lídia Baís”, aberta ao público no Museu da Imagem e do Som (MIS), em Campo Grande, como parte da programação da Semana Nacional de Museus. A mostra celebra os 125 anos de nascimento da artista, figura emblemática da cultura regional e brasileira.
A exposição reúne 15 pinturas originais e 10 discos com composições da própria Lídia, revelando não só sua potência como artista visual, mas também como musicista. A entrada é gratuita e a visitação segue até o dia 27 de junho, de segunda a sexta-feira, das 7h30 às 17h30, no terceiro andar do Memorial da Cultura, no Centro da Capital.
As obras presentes no MIS são marcadas pela espiritualidade e ousadia de Lídia, com destaque para pinturas como “Auto Retrato (Simboliza-Trindade)”, “Virgem com Cruz” e “Micróbio da Fuzarca”, todas realizadas com óleo sobre tela. A artista, que flertava com o expressionismo e o surrealismo, explorava com coragem a dualidade entre o sagrado e o profano, temas recorrentes em sua produção.
A noite de abertura contou com uma apresentação especial da pianista Maria Rita Gonçalves de Oliveira, que interpretou duas composições resgatadas de discos antigos gravados por Lídia Baís no início do século XX. O trabalho de restauração e transcrição das músicas está sendo conduzido pelo maestro Eduardo Martinelli e pela jornalista Lilian Veron, em um projeto que visa preservar esse acervo raro sob a guarda do MIS.
Segundo Márcio Veiga, diretor do Museu, os 10 discos de vinil são materiais extremamente delicados e estão sendo tratados com rigor técnico. “É um material valioso, que precisa ser digitalizado, transcrito e protegido para garantir os direitos de autoria de Lídia e o acesso público a essa parte pouco conhecida de sua obra.”
Natural de Campo Grande, Lídia nasceu em 1900 e rompeu barreiras em uma época de forte conservadorismo social. Filha do maestro Gabriel Baís, estudou arte no Rio de Janeiro com nomes renomados como Henrique Bernardelli e Oswaldo Teixeira, e depois levou seu talento à Europa, onde teve contato com movimentos artísticos inovadores que marcaram sua estética.
Ela também escreveu o livro História de T. sob o pseudônimo de Maria Tereza Trindade e criou o Museu Baís, idealizado para ser um centro cultural — embora nunca tenha sido aberto oficialmente. Sua casa, a Morada dos Baís, acabou assumindo esse papel com o tempo e permanece como símbolo da história cultural campo-grandense.
A arte-educadora Patrícia Aguena, do Marco, reforça a importância da iniciativa: “Reapresentar Lídia ao público por meio do MIS é um gesto potente de valorização da memória cultural e do protagonismo feminino na arte de Mato Grosso do Sul.”







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