O trágico feminicídio da jornalista Vanessa Ricarte, ocorrido no último dia 12 de fevereiro, expôs falhas graves no sistema de proteção às mulheres vítimas de violência doméstica em Campo Grande. O caso gerou repercussão e resultou na troca de metade da equipe do Promuse (Programa Mulher Segura) da Polícia Militar, incluindo agentes que atuavam desde o início do programa.
As mudanças foram publicadas no Diário Oficial do Estado (DOE) desta segunda-feira (17), assinadas pela subcomandante da Polícia Militar de Mato Grosso do Sul, coronel Neidy Nunes Barbosa Centurião. Segundo agentes do programa, a decisão veio após denúncias sobre a burocratização do atendimento às vítimas e a falta de estrutura da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam), que falhou ao acolher Vanessa Ricarte antes do crime.
Falhas no atendimento e burocracia na Deam
A jornalista procurou a Deam no dia do crime para denunciar o ex-noivo, Caio Cesar Nascimento Pereira, por divulgação de imagens íntimas e ameaças. Ela solicitou medida protetiva e chegou a ser orientada a buscar abrigo na Casa da Mulher Brasileira, mas recusou. Horas depois, ao retornar ao imóvel para buscar pertences, foi brutalmente assassinada com três facadas no coração.
Um áudio enviado por Vanessa a um amigo revelou que a própria polícia teria orientado sua volta para casa, onde encontrou o agressor. O caso evidencia as falhas estruturais e operacionais no atendimento às mulheres em situação de violência, segundo denúncias de policiais militares do Promuse.
Denúncias internas e mudanças no Promuse
Uma policial do Promuse, que teve seu nome preservado, revelou que a equipe já havia alertado sobre a precariedade do atendimento na Deam. Segundo ela, vítimas frequentemente eram desencorajadas a registrar medidas protetivas presencialmente e orientadas a buscar a alternativa online.
Além disso, a gestão do Promuse nos últimos anos teria reduzido a autonomia dos agentes, restringindo contatos diretos com as vítimas e limitando o tempo para as visitas de monitoramento. “Hoje, para eles, é apenas uma questão de números, não de vidas”, desabafou a policial.
Governo admite falhas
Diante da repercussão do caso, o Governo do Estado reconheceu que houve falhas no atendimento à jornalista e determinou a abertura de um procedimento para investigar o ocorrido. O delegado-geral da Polícia Civil, Lupérsio Degerone, afirmou que a medida foi uma orientação direta do governador Eduardo Riedel (PSDB) e da Secretaria Estadual de Justiça e Segurança Pública (Sejusp).
O feminicídio de Vanessa Ricarte trouxe à tona um problema estrutural no sistema de proteção às mulheres em Mato Grosso do Sul. O caso gerou indignação e reforça a necessidade urgente de revisão nas políticas de atendimento e segurança para vítimas de violência doméstica.







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