Promovido pelo Instituto Sustentar, em parceria com a Verdelho Comunicação, o webinário “Fauna nas Estradas: Risco de Vida para Animais e Pessoas” reuniu, nos dias 13, 14 e 15 de maio, alguns dos maiores especialistas do Brasil para discutir os impactos das rodovias sobre a fauna silvestre e propor formas de mitigação para esse grave problema.

O evento contou com o apoio das seguintes instituições: ICAS – Instituto de Conservação de Animais Silvestres, UNEMAT – Universidade do Estado de Mato Grosso, REET Brasil – Rede de Especialistas em Ecologia de Transportes, Instituto SOS Pantanal, Observatório Rodovias Seguras para Todos e Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias (ABCR).
A última palestra do painel “Rota para o caminho certo” foi ministrada por Amanda Messias, bióloga e pesquisadora, mestre em Conservação da Biodiversidade. Ela apresentou o case “Mapeamento hotspot rodovia MS: propondo soluções reais para a proteção da vida silvestre”, que destacou iniciativas concretas para reduzir os impactos das rodovias sobre os animais silvestres.
Abaixo, o resumo de sua palestra:
Estudo revela hotspots de atropelamento de fauna nas rodovias de acesso a Bonito (MS) e propõe medidas para mitigação

Amanda Messias, mestre em Conservação da Biodiversidade e bióloga especialista em fauna, iniciou sua apresentação agradecendo ao Instituto Sustentar, Bichos do Pantanal, ICAS e demais organizadores pelo convite. Em sua fala, ela compartilhou os resultados de um estudo de campo profundo e inédito, conduzido entre dezembro de 2023 e julho de 2024, sobre o impacto de atropelamentos de fauna silvestre nas rodovias de acesso à cidade de Bonito (MS), reconhecida como a capital brasileira do ecoturismo.
Logo no início, Amanda contextualizou a importância do tema, destacando que rodovias são uma das principais fontes de mortalidade de fauna silvestre, com impactos significativos para a manutenção das populações naturais. Embora já existam diversas medidas de mitigação — como passagens superiores e inferiores, placas de sinalização e cercamentos — a implementação dessas estruturas demanda alto custo, o que reforça a necessidade de uma abordagem estratégica, com identificação precisa dos chamados hotspots (pontos críticos de atropelamento).
O trabalho de Amanda envolveu o monitoramento de três rodovias estaduais: a MS-178 (dividida em trecho norte e sul), a MS-345 e a MS-382, todas com papel estratégico no fluxo de turistas e no acesso às principais atrações de Bonito, como Boca da Onça, Ceita Corê, Rio da Prata, Lagoa Misteriosa e o aeroporto. Ao longo dos sete meses de estudo, foram identificados 463 atropelamentos, sendo 428 de animais silvestres, 25 de domésticos e 10 não identificáveis devido ao alto grau de decomposição das carcaças.
Entre as espécies mais atingidas estavam o tatupeba, o cachorro-do-mato, a seriema, o tamanduá-bandeira e a capivara. Amanda mencionou com pesar o atropelamento de um gato-palheiro, uma espécie ameaçada com estimativa populacional de cerca de 5 mil indivíduos na natureza — episódio que marcou profundamente sua pesquisa. Ela ressaltou que, além dos atropelamentos, também registrou avistamentos de animais atravessando as vias, algo que muitos estudos não costumam considerar, mas que é fundamental para entender os padrões de uso do habitat e os horários de atividade dos animais.
Durante o estudo, Amanda utilizou georreferenciamento para localizar com precisão os eventos, separando os registros por grupos taxonômicos. O material foi processado e resultou na identificação de 110 clusters (agrupamentos) de atropelamentos, distribuídos da seguinte forma:
- 49 clusters envolvendo todos os registros,
- 34 de espécies silvestres,
- 17 de mamíferos silvestres,
- 6 de aves,
- 2 de herpetofauna (répteis e anfíbios),
- 2 de espécies ameaçadas e
- 1 de espécies domésticas.
Já os avistamentos geraram 53 clusters:
- 19 envolvendo todos os registros,
- 16 de espécies silvestres,
- 9 de aves,
- 3 de mamíferos,
- 1 de espécies arborícolas,
- 1 de ameaçadas e
- 4 de domésticas.
Amanda destacou que o grupo-alvo da análise foi o dos mamíferos silvestres, por representarem a maioria dos registros e por também oferecerem riscos à segurança dos motoristas. Com base nos dados, foram produzidos mapas de calor indicando níveis de criticidade (muito baixos a muito altos) para atropelamentos e avistamentos, revelando áreas de sobreposição crítica — ou seja, locais onde o número de atropelamentos e de travessias era simultaneamente elevado.
Outro dado relevante do estudo foi o mapeamento de 40 passagens inferiores existentes nas rodovias monitoradas, mesmo que nenhuma delas tenha sido originalmente projetada para a fauna. Essas passagens incluíam:
- 19 pontes fluviais,
- 11 bueiros celulares de concreto (conhecidos como “caixa seca”) e
- 10 bueiros tubulares simples.
A rodovia com mais passagens foi a MS-345 (21 estruturas), seguida pela MS-178 (trecho sul, com 7 passagens) e, por fim, a MS-178 (trecho norte) e a MS-382, ambas com 6 passagens. Amanda mostrou ainda um mapa com a localização dessas estruturas e fez uma análise espacial da distância entre os hotspots e as passagens, com resultados preocupantes:
- Nos casos de atropelamentos, as distâncias entre as agregações e as passagens variaram entre 11 metros e 3 quilômetros, com a maioria a menos de 1 km.
- Para avistamentos, a situação foi ainda mais crítica, com distâncias variando de 2 metros a 499 metros.
Isso evidenciou que, apesar de existirem passagens, elas não estão sendo utilizadas de forma eficaz pela fauna, o que pode estar relacionado à ausência de cercamentos — uma medida fundamental para direcionar os animais às estruturas seguras. Amanda ressaltou que, com cercamento adequado (500 metros de cada lado das passagens), muitos dos atropelamentos e até mesmo avistamentos em locais perigosos poderiam ser evitados. Ela citou estudos que apontam que o cercamento pode reduzir em até 83% os atropelamentos de mamíferos silvestres.
Como ilustração, Amanda compartilhou um vídeo impactante de um cachorro-do-mato atropelado em cima de uma ponte, reforçando a urgência de medidas estruturais combinadas — passagens, cercamento e sinalização.
Encerrando a apresentação, Amanda contou que os resultados e mapas do estudo foram levados ao conhecimento do Ministério Público, com a participação da AGESUL (gestora das rodovias estaduais no MS), IBAMA, Instituto ICAS e outras entidades. As áreas prioritárias e sugestões de intervenção foram formalmente apresentadas às autoridades.
Por fim, Amanda concluiu emocionada, dizendo que a pesquisa, embora limitada pelo tempo de apresentação, representa uma “luz no fim do túnel” e uma oportunidade concreta de mudança para a Serra da Bodoquena. Ela finalizou com a citação: “No final, só se conserva o que se ama, e só se ama aquilo que se compreende. Compreendemos apenas aquilo que nos é ensinado”.
Amanda Messias – Bióloga e Pesquisadora, mestre em conservação da biodiversidade
Para assistir à íntegra o terceiro e último dia do webinário Fauna nas Estradas, clique aqui.






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