Seis contatinhos, zero paciência pra “ficar em aberto”
“Estudo revela que mulheres solteiras saem até com seis pessoas ao mesmo tempo antes de escolher um parceiro”.
Esse é aquele tipo de manchete que faz metade dos homens surtar, metade das mulheres responder “só seis?” e a outra metade lembrar que nem match tá vindo.
Por trás do meme, porém, tem um dado real: uma pesquisa feita pela plataforma de relacionamentos eHarmony Austrália mostrou que, na era dos apps, virou normal para solteiros terem até seis potenciais parceiros em rotação ao mesmo tempo.
O estudo fala de “solteiros” em geral, mas, óbvio, a internet fez o que sabe fazer de melhor: pegou o dado, colocou glitter, recortou o contexto e transformou em “mulheres solteiras com seis homens ao mesmo tempo”.
Mas vamos aos fatos, com números, contexto e aquela pitada de malícia responsável.
O estudo do “seis de uma vez”
A pesquisa da eHarmony Austrália, divulgada em 2016, analisou o comportamento de jovens adultos na cena de relacionamentos online. Entre as conclusões:
- É “normal” sair com até seis pessoas ao mesmo tempo antes de definir algo mais sério.
- A lógica é de “manter opções abertas” — ninguém quer apostar todas as fichas em alguém que pode sumir no dia seguinte;
- A cultura do ghosting (sumir sem explicar nada) está em alta:
- 64% dos solteiros disseram já ter sido ghosteados;
- 51% admitiram já ter ghosteado alguém.
Ou seja: se todo mundo some sem avisar, faz sentido testar mais de uma possibilidade antes de investir tempo, energia, skincare e Uber.
Tradução livre: não é libertinagem, é gestão de risco emocional.
“Mas é só mulher que faz isso?”
Não. O estudo fala de solteiros, ponto. Quem adaptou pra “mulheres solteiras” foi o imaginário popular (e alguns influenciadores muito animados com engajamento).
Só que tem um detalhe importante: nos apps, os números jogam a favor das mulheres.
Uma análise recente com dados da própria eHarmony e pesquisas do Pew Research Center mostrou que:Forbes Brasil
- Cerca de 80 milhões de americanos usam sites ou apps de namoro (aprox. 30% da população adulta);
- Homens são maioria: cerca de 34% dos homens usam apps, contra 27% das mulheres;
- Entre jovens abaixo de 30 anos, 63% dos homens se declaram solteiros, contra 34% das mulheres.
Resultado: tem muito mais homem correndo atrás e proporcionalmente menos mulher disponível. Em outras palavras:
As mulheres têm mais oferta, logo podem ser mais seletivas – e sim, isso inclui testar mais de um contatinho ao mesmo tempo.
Elas com seis contatinhos, eles em modo desespero?
Um estudo publicado em 2025 na revista PLOS One, analisando quase 3.000 usuários de app de namoro na República Tcheca, mostrou que:
- Homens costumam dar like em mulheres consideradas mais “desejáveis” do que eles (miram pra cima o tempo todo);
- Mulheres fazem escolhas mais estratégicas, conectando-se com homens vistos como iguais ou ligeiramente abaixo em atratividade;
- A desejabilidade é extremamente desigual: uma minoria (muitas vezes mulheres) recebe a maior parte dos likes, enquanto muitos homens quase não recebem atenção.
Ou seja: enquanto uns estão disputando a tapa o top 5% dos perfis, outras estão administrando uma agenda afetiva enxuta, porém constante — os famosos contatinhos em rotação.
O que as mulheres realmente olham na hora de escolher “o titular”
Não basta ter seis na pré-lista: em algum momento alguém vira “o oficial”. E aí entra outro dado interessante.
Uma pesquisa do app Inner Circle, feita só com mulheres usuárias, e divulgada pela IstoÉ, mostrou o que pesa na hora de escolher o pretendente:
- Caráter – 94,8%
- Inteligência – 73,7%
- Bondade – 72%
- Senso de humor – 63,1%
- Compatibilidade – 61,6%
- Aparência – 42,7%
- Originalidade – 11,5%
Repare no plot twist:
Mesmo numa era em que todo mundo jura que é tudo sobre “crush bonito do Instagram”, caráter ainda reina soberano. A beleza aparece bem depois na fila.
Então sim, ela pode estar conversando com seis ao mesmo tempo. Mas, na cabeça dela, rola quase um reality show interno:
- Candidatx 1: bonito, mas some dois dias e volta com “oi sumida”.
- Candidatx 2: engraçado, mas acha meme machista “só uma piada”.
- Candidatx 3: conversa boa, lembra das coisas que ela fala, pergunta se chegou bem.
- Candidatx 4, 5, 6: revezando entre “talvez” e “nunca mais respondi”.
Quem vira parceiro fixo, no fim, costuma ser o combo: respeito + caráter + papo decente + química.
E elas querem relacionamento ou só manter elenco de apoio?
Aqui entra outro mito que os dados derrubam.
Um estudo global encomendado pelo Tinder em 2024, com 8.000 solteiros de 18 a 34 anos, mostrou que:
- 68% das mulheres disseram estar procurando um relacionamento romântico;
- Entre os homens, o número é 53%.
Ou seja: ao contrário do estereótipo, as mulheres não estão necessariamente buscando uma eterna vida de seis contatinhos.
O que elas estão fazendo é não se apegar ao primeiro que manda “bom dia, princesa” e depois some, justamente porque:
- Hoje tem mais opções (apps, redes sociais, etc.);
- A chance de frustração é alta (a cultura do ghosting tá aí pra provar);
- A vida tá corrida demais pra apostar tudo em alguém que ainda nem mostrou serviço emocional básico.
“Seis de uma vez” não é libertinagem, é benchmarking amoroso
Na prática, o que esse tipo de dado aponta é:
- Multiplicar contatinhos virou estratégia de proteção emocional
- Se um some, o mundo não acaba, a agenda não zera.
- Mulheres estão menos dispostas a “consertar” parceiro
- Com mais oferta (mesmo que cansativa), a lógica é: “se não presta, próximo”, não “vou educar esse homem”.
- O “ensaio” ficou mais longo que o relacionamento oficial
- Antes: ficar, namorar, casar.
- Agora: match, DM, audio, stories, encontros ocasionais, sumiços, voltas, mais match, mais filtro… aí talvez relacionamento.
Isso não significa que toda mulher solteira está com um harém de seis pessoas, nem que todo homem está sofrendo na seca. São tendências médias observadas em grupos específicos, contextos urbanos, países com alta adoção de apps etc.
Mas significa, sim, que:
A era do “me pediu em namoro depois de três encontros” deu lugar à era do “tá na rotação, mas ainda não ganhou a vaga CLT no coração”.
Dados, sim. Julgamento, não.
Pra fechar com responsabilidade (e ainda assim com uma piscadinha):
- O dado dos seis contatinhos vem de um estudo específico, num contexto específico (Austrália, 2016, usuários de app).
- Outras pesquisas recentes mostram que:
- Há muito mais homens do que mulheres nos apps, o que dá mais poder de escolha a elas;
- Mulheres tendem a ser mais estratégicas e cautelosas na escolha;
- A maioria ainda quer relacionamento sério, não só rodízio de crush.
Então, se você é homem lendo isso:
- Em vez de surtar com a ideia de “seis de uma vez”, talvez valha mais:
- Ser coerente,
- Tratar bem,
- Respeitar limites,
- Não sumir sem avisar,
- E, quem sabe, virar justamente aquele que faz ela desinstalar metade dos contatinhos.
Se você é mulher:
- Pode imprimir esta matéria e responder com um simples “é estudo científico, amor” quando alguém reclamar da sua lista de conversas no WhatsApp.
No fim das contas, a moral da história é simples:
ninguém é obrigado a escolher rápido num mercado afetivo onde a qualquer momento alguém pode virar fantasma.
Se é pra se comprometer, que seja com calma, com dados…
…e, se der, com alguém que tenha passado no filtro de caráter, inteligência, humor e, claro, não ser um fantasma com Wi-Fi.







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