Ela pode ser de calabresa, frango com catupiry, marguerita ou portuguesa. Pode ter massa alta, fina, recheada ou crocante. Independentemente da versão, a pizza é, sem dúvidas, um dos pratos mais queridos pelos brasileiros — e tem até data para chamar de sua: o Dia da Pizza, comemorado neste 10 de julho.
O que muitos não sabem é que a origem da pizza como conhecemos hoje tem caminhos que vão muito além da Itália. Embora seja reconhecida mundialmente como símbolo da culinária italiana, foi no Brasil, mais especificamente em São Paulo, que a pizza se consolidou como uma paixão nacional.
A data foi oficializada em 1985, após um concurso promovido pela Secretaria de Turismo do Estado de São Paulo, que premiou as melhores receitas paulistas. O sucesso foi tanto que a celebração se espalhou pelo país, sendo adotada informalmente por pizzarias de norte a sul, que aproveitam o dia para oferecer promoções, combos especiais e homenagens ao prato que virou patrimônio afetivo da mesa brasileira.
Uma fatia da história: da comida popular à tradição familiar
Quem mergulha fundo nesse universo é a jornalista e historiadora da alimentação Flávia G. Pinho, autora do livro “Uma Fatia da Itália”, que investigou a fundo o processo de adaptação da pizza em solo brasileiro. Segundo ela, o prato chegou ao Brasil trazido por imigrantes do sul da Itália no início do século 20, especialmente em São Paulo, mas com um perfil bem diferente do que conhecemos hoje.
Na Itália, a pizza era uma comida regional, consumida pelas camadas mais pobres da sociedade napolitana. Servida em porções individuais, era vendida por ambulantes, feita com ingredientes simples e de fácil acesso — como tomates, queijos ou peixes secos — e consumida com as mãos, em qualquer lugar.
Foi em São Paulo que a pizza passou por uma transformação profunda. O prato ganhou status de refeição compartilhada, servido em grandes discos no centro da mesa, ideal para reunir amigos e família. Ao contrário da tradição napolitana, que preza por coberturas leves e massas fofas, a pizza brasileira é marcada pela fartura de recheios, massa fina e crocante — resultado direto da escassez de farinhas de trigo de boa qualidade no Brasil da época.
As primeiras fornadas no Brasil
Antes das pizzarias ganharem espaço, a pizza era feita nas casas dos imigrantes, principalmente pelas mulheres, no fim do dia, como uma forma de reunir amigos e matar a saudade da terra natal. Essa prática informal acabou dando origem aos primeiros negócios.
A primeira pizzaria formal no Brasil, segundo Flávia, foi aberta em 1910 por Carmino Corvino, um imigrante italiano que vendia pizzas como ambulante antes de inaugurar seu estabelecimento.
Com o passar do tempo, a pizza ganhou o paladar do país inteiro e passou a fazer parte da rotina dos brasileiros, especialmente aos domingos — dia considerado tradicional para o consumo da redonda em família.
Um prato que se reinventa
As adaptações não pararam por aí. O excesso de cobertura, marca registrada da pizza brasileira, também tem explicações culturais. Alguns dizem que se trata de uma reação à fartura de ingredientes disponíveis no Brasil, em contraste com a escassez vivida na Europa. Outros acreditam que o costume se consolidou pelo improviso dos pizzaiolos da época, que montavam os sabores com base no que havia disponível — e com a liberdade criativa dos empregados que manipulavam diretamente as massas.
Na década de 1980, com a chegada do videocassete e o surgimento do lazer doméstico, nasceu outro fenômeno: o delivery de pizza. Pedir uma pizza para acompanhar a sessão de filmes em casa virou um costume nacional. E não parou mais.
Números que impressionam
De acordo com a APUBRA (Associação de Pizzarias Unidas do Brasil), o país conta atualmente com mais de 112 mil pizzarias ativas, considerando apenas os estabelecimentos formalmente registrados com CNAE relacionado. São Paulo lidera com folga: o estado tem mais de 26 mil pizzarias, mostrando que a paixão pela pizza é, sim, um fenômeno cultural e econômico.
Afinal, por que amamos tanto a pizza?
A resposta, segundo a autora, está na versatilidade e no afeto. É um prato que permite infinitas variações e adaptações, agrada todos os gostos, vai bem em qualquer ocasião e, principalmente, carrega consigo uma tradição de união.
“A pizza se tornou uma comida ritual. Deixou de ser apenas algo que mata a fome para se tornar uma forma de reunir pessoas. É comida com memória, com história, com vínculo afetivo”, afirma Flávia G. Pinho.
Neste Dia da Pizza, mais do que comemorar com uma fatia caprichada, vale lembrar a trajetória desse prato que atravessou continentes, superou guerras, se adaptou e se tornou parte da nossa identidade nacional.







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