Com mais de 18 milhões de brasileiros afetados, o país mais ansioso do mundo busca novas formas de tratar um problema que cresce silenciosamente — das terapias comunitárias ao uso do canabidiol.
O tamanho do problema
Mais de 1 bilhão de pessoas em todo o mundo vivem com algum tipo de transtorno mental, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).
Entre eles, a ansiedade é o mais comum — e o Brasil lidera o ranking global.
De acordo com o Ministério da Previdência Social:
- 49 mil pessoas foram afastadas do trabalho por ansiedade em 2021.
- Mais de 81 mil já se afastaram só no primeiro semestre de 2025.
Esses números revelam uma crise invisível — que não aparece em exames de sangue, mas afeta o corpo, a mente e a produtividade de milhões de brasileiros.
Quando a ansiedade deixa de ser “normal”
Sentir frio na barriga antes de uma entrevista ou prova é natural. O problema começa quando a ansiedade não dá trégua — e passa a interferir no sono, nas relações e no trabalho.
“A ansiedade é uma ladra de momentos presentes. Ela te rouba do agora e te leva para um lugar muito ruim de estar.”
— Alexandre Coimbra Amaral, psicólogo
Casos como o de Natália Oliveira, que enfrentou sua primeira crise aos 10 anos, e o da atriz Dayane Lopes, que chegou a desmaiar por ansiedade, mostram que o transtorno não escolhe idade, classe social ou profissão.
Os rostos (e nomes) da ansiedade
A ansiedade tem várias faces e diagnósticos possíveis:
- TAG (Transtorno de Ansiedade Generalizada): preocupação constante com tudo — do trabalho à saúde.
- Fobias sociais: medo de se expor, falar em público ou sair de casa.
- Síndrome do pânico: crises súbitas e intensas de medo.
O psiquiatra Márcio Bernik explica:
“A ansiedade é uma mistura cruel entre genética, ambiente e escolhas. Tratar um jovem ansioso pode prevenir depressão na vida adulta.”
A mente ansiosa libera mais cortisol (hormônio do estresse) e menos serotonina, o que afeta humor, sono e disposição.
O peso das telas
O brasileiro passa, em média, 9 horas por dia conectado.
O resultado? Um cérebro em alerta constante — e um corpo que não sabe mais relaxar.
O Ministério da Saúde registrou um aumento de 1.500% nos atendimentos por ansiedade em crianças e 3.000% entre adolescentes em uma década.
“As redes sociais alimentam a comparação constante. É um espiral de insatisfação e angústia”, alerta o biólogo Gabriel do Nascimento, que abandonou as redes por recomendação médica.
Caminhos para o tratamento
Não existe receita única. O tratamento envolve médicos, psicólogos e mudanças no estilo de vida.
As abordagens mais eficazes incluem:
- Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC)
- Exercícios físicos intensos (corrida, bike, dança)
- Práticas de mindfulness e respiração
“No mindfulness, a respiração vira uma âncora. Ela te traz de volta para o presente”, explica o médico Marcelo Demarzo.
Estudos mostram que oito semanas de meditação guiada podem reduzir em até 60% os sintomas de ansiedade.
Canabidiol: o novo aliado
Desde 2024, a Prefeitura de São Paulo distribui gratuitamente medicamentos à base de canabidiol (CBD) pelo SUS para pacientes com transtornos de ansiedade e síndrome do pânico.
“O canabidiol tem se mostrado eficaz em quem não respondeu bem a outros remédios — sem causar dependência”, explica a psiquiatra Camila Magalhães Silveira.
A artesã Maria de Fátima Lima, de Paraisópolis, conta:
“Depois do canabidiol, eu durmo, acordo cedo, descansada e sem dor no corpo.”
Reflexão: ouvir o corpo é o primeiro passo
Da medicação tradicional ao mindfulness, das terapias comunitárias ao uso do canabidiol, o tratamento da ansiedade é um chamado à escuta interna.
A psicóloga Fernanda Lopes resume:
“A ansiedade pode ser uma fase — e não precisa durar a vida toda. Mas é preciso reconhecer quando ela chega.”
Respirar fundo pode não resolver tudo.
Mas é sempre o melhor começo.







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