Novas estruturas de travessia dão continuidade às medidas já implantadas para diminuir os acidentes com animais silvestres no Pantanal
A BR-262, conhecida nacionalmente como “Estrada da Morte” devido ao alto índice de atropelamentos de animais silvestres, começa a receber estruturas que permitem a travessia segura da fauna no trecho entre Aquidauana e Corumbá, em Mato Grosso do Sul.
Colisões com animais de grande porte, como antas e tamanduás-bandeira, representam riscos graves à vida humana e geram altos custos sociais e econômicos. A implantação das passagens de fauna procura enfrentar diretamente esse problema, transformando um dos trechos mais perigosos do país em rota de esperança. As novas passagens de fauna incluem túneis subterrâneos e estruturas aéreas, acompanhadas de cercas direcionadoras, além de sinalização adequada e limites de velocidade em áreas críticas.
As cercas direcionadoras guiam os bichos até pontos seguros de travessia e impedem o acesso direto à pista em áreas críticas. As passagens subterrâneas e aéreas oferecem alternativas adaptadas a diferentes espécies: túneis são usados por tamanduás, tatus e pequenos felinos, enquanto estruturas suspensas atendem a primatas e outros animais arborícolas. A sinalização reforçada e a redução de velocidade em trechos estratégicos também aumentam a atenção dos motoristas e diminuem a probabilidade de colisões.
Experiências internacionais comprovam a eficácia dessas medidas. Uma meta-análise publicada na revista PLoS ONE avaliou 50 estudos em diferentes países e concluiu que a combinação de cercas com passagens de fauna pode reduzir os atropelamentos de grandes mamíferos em até 83%. Outro trabalho, publicado no Journal of Wildlife Management por pesquisadores do USGS e da Universidade do Tennessee, registrou redução de cerca de 58% em atropelamentos após a instalação de túneis e cercas em uma rodovia da Carolina do Norte.
O projeto é resultado de décadas de monitoramento e pesquisas, além da colaboração entre organizações ambientais, empresas privadas, órgãos públicos e especialistas. Desenvolvido pela consultoria ViaFauna, contratada pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), o plano conta com apoio do Instituto de Conservação de Animais Silvestres (ICAS), responsável desde 2013 pelo Projeto Bandeiras e Rodovias, que registra os impactos das colisões na região.
Agosto trouxe as primeiras medidas
Essas medidas dão sequência a iniciativas apresentadas em agosto, quando a rodovia já havia recebido duas passagens subterrâneas no mesmo trecho. Naquele momento, os números chamavam atenção: entre maio de 2023 e abril de 2024, foram registrados 2,3 mil animais mortos em 350 quilômetros da BR-262. Em um levantamento mais amplo, de 2017 a 2020, o Mato Grosso do Sul registrou 215,9 mil carcaças em rodovias estaduais e federais.
O Plano de Mitigação da Fauna prevê a instalação de dezenas de estruturas semelhantes, ampliando progressivamente a rede de proteção para reduzir os impactos da rodovia sobre espécies como tamanduás-bandeira, antas e lobos-guará.
As primeiras imagens das novas estruturas foram registradas pelo cineasta Sandro Kakabadze e vão integrar um documentário do projeto Documenta Pantanal. Para especialistas, a BR-262 deixa de ser apenas símbolo de perda da biodiversidade e passa a representar um laboratório de soluções que conciliam mobilidade, segurança e preservação.







0 comentários