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Atropelamentos de fauna em rodovias: biólogo apresenta dados alarmantes e defende medidas para reduzir impactos sociais, ambientais e econômicos

por | ago 22, 2025 | Fauna nas Estradas, SLIDER | 0 Comentários

Promovido pelo Instituto Sustentar, em parceria com a Verdelho Comunicação, o webinário “Fauna nas Estradas: Risco de Vida para Animais e Pessoas” reuniu, nos dias 13, 14 e 15 de maio, alguns dos maiores especialistas do Brasil para discutir os impactos das rodovias sobre a fauna silvestre e propor formas de mitigação para esse grave problema.

Divulgação

O evento contou com o apoio das seguintes instituições: ICAS – Instituto de Conservação de Animais SilvestresUNEMAT – Universidade do Estado de Mato GrossoREET Brasil – Rede de Especialistas em Ecologia de TransportesInstituto SOS PantanalObservatório Rodovias Seguras para Todos e Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias (ABCR).

No segundo painel, “Impactos irreversíveis”, o primeiro palestrante foi Vagner Reis, biólogo, mestre em Ecologia e doutor em Engenharia Civil. Professor e presidente da REET Brasil, ele apresentou a palestra “Cenários de atropelamentos nas rodovias federais brasileiras e o papel da REET”.

Abaixo, o resumo de sua palestra:

Cenários de atropelamentos nas rodovias federais e o papel da REET: desafios e propostas apresentados por Vagner Reis

Vagner Reis, biólogo, mestre em ecologia e doutor em engenharia civil. Professor e presidente da REET Brasil

Vagner Reis iniciou sua apresentação agradecendo o convite e destacando sua longa trajetória — quase 20 anos — no licenciamento de rodovias. Segundo ele, houve certa evolução no tratamento das interações entre rodovias, fauna e vegetação no Brasil, mas os desafios ainda são muitos. A palestra teve como foco principal a análise de dados relacionados a acidentes envolvendo animais nas estradas brasileiras, especialmente rodovias federais.

Vagner destacou a vasta malha viária nacional: cerca de 76 mil km sob administração federal, 225 mil km de rodovias estaduais e mais de 1 milhão de km de estradas municipais (HUB de Projetos – BNDES, 2019) . A maioria dos dados utilizados para avaliação de impacto sobre a fauna vem de projetos de pesquisa, ONGs e consultorias, contudo são necessários projetos de monitoramento de longo prazo cobrindo a extensão máxima possível das rodovias.

A base com maior número de registros de atropelamentos de animais é da Polícia Rodoviária Federal (PRF), são subestimados, pois desde 2016, é  registrado  apenas acidentes com danos graves ao veículo ou lesões pessoais; No caso de atropelamento de animais de pequeno porte, que resultam na morte do animal, sem avarias ao veículo, não entra nas estatísticas públicas. E, em todos os casos,  as espécies não são registradas, apenas que ocorreu a colisão (ver Dados Abertos da PRF).

Apesar disso, os dados já disponíveis são alarmantes: cerca de 16.440 acidentes envolvendo animais foram registrados em rodovias federais em um recorte entre 2019 e 2025. Em rodovias como a BR-262 ou BR-230 (Transamazônica), esse tipo de acidente chega a figurar entre as 12 principais causas de acidentes

Estudo realizado para o estado de São Paulo estimou um custo superior a US$ 25 milhões, o que representa R$ 138 milhões (Abra et al., 2018). Considerando os custos por acidente, em reais, é de R$ 52.800,00. O mesmo trabalho mostra que 91,7% das ações judiciais resultam em ganho para os usuários e responsabilizam o administrador da rodovia. Do total de acidentes envolvendo fauna, 8% resultam em mortes, 68% em ferimentos graves, e apenas 24% não envolvem vítimas. Estimativas extraoficiais indicam que entre 60% e 70% das colisões com vítimas fatais envolvem animais domésticos, principalmente cavalos.

O palestrante enfatizou que o problema do atropelamento de fauna, muitas vezes, começa fora da rodovia, com o abandono de animais domésticos e a criação inadequada em propriedades lindeiras.  Lembrou que esse tipo de abandono é crime, além de ferir os direitos dos animais, representa um risco para vidas humanas. Citou o caso pessoal da morte de seu pai, vítima de um acidente causado por vacas soltas na pista, como exemplo do impacto humano desse problema.

Vagner defendeu que o processo de licenciamento ambiental, hoje muito centrado na fauna silvestre, também precisa considerar os animais domésticos, especialmente em áreas com ocupação urbana ou rural irregular.

Os dados de acidentes da PRF, revelam que 77% dos atropelamentos ocorrem em trechos retilineos das rodovias, o que indica que a velocidade excessiva é um fator preponderante. Apenas 8% ocorrem em curvas. Além disso, a maioria dos acidentes se dá sob céu claro, e não em condições de baixa visibilidade, desfazendo o mito de que a iluminação ou a visão são os principais responsáveis.

Os atropelamentos são mais frequentes às sextas, sábados e domingos, e majoritariamente à noite, o que está relacionado ao comportamento noturno de muitas espécies, que buscam tranquilidade e menor presença humana nesses períodos. Diante disso, Vagner sugeriu medidas como redução de velocidade em trechos críticos, sinalização adequada, instalação de cercas e passagens de fauna, drenagem para evitar o acúmulo de água (que atrai animais) e monitoramento contínuo da fauna. Ressaltou que os pontos de travessia não são fixos, pois mudam conforme a paisagem se transforma, sendo necessário revisar e adaptar constantemente as medidas adotadas.

Para Vagner, é essencial reconhecer que o atropelamento de fauna tem implicações sociais e econômicas significativas, e, portanto, deve ser tratado como tal nos estudos de impacto ambiental.

Encerrando sua fala, Vagner destacou o papel da REET Brasil, organização da qual é presidente, na promoção de debates técnicos e na formulação de propostas para aprimorar o licenciamento ambiental e as políticas públicas voltadas à proteção da fauna nas rodovias. Defendeu que sistemas de gestão ambiental são formados por pessoas, e que, portanto, é preciso fomentar o diálogo, baseado em ciência e dados confiáveis, para garantir estradas mais seguras para animais e seres humanos.

Para assistir à íntegra do primeiro dia do webinário Fauna nas Estradas, clique aqui.

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