Em tempos de celebrações cada vez mais aceleradas, muitos começam a perceber que algo ficou de lado: o ritual do “esquenta” — aquele momento pré-festa em que o encontro, o papo, o riso e a preparação tinham lugar — parece estar morrendo. E, com ele, parte da nossa sociabilidade.
A memória do “esquenta”
Havia um instante antes da festa principal: grupos se reuniam em casa, no carro, em bares tranquilos. A animação não era apenas entrar na festa, mas o caminho até ela: músicas tocando, risadas espontâneas, “vamos chegando juntos”, sem pressa. Aquilo era parte da festa.
Esse momento promovia descontração, construção de laços — era tempo de conversa, de “ajustar” o encontro, de entrar com calma no clima.
O que mudou
Hoje, a festa muitas vezes vira um circuit breaker: direto do cotidiano para o agito, sem a “prévia”. Algumas causas apontadas:
- A cultura da pressa: “chegar para já”, “começar logo”, sem aquele “aquecimento” de sociabilidade.
- A expectativa alterada pelas redes e apps: o encontro começa antes mesmo de ver os amigos, no feed-stories, e o previamente compartilhado já se atropela.
- O consumo do lazer acelerado: menos tempo para o antes, mais foco no “evento principal”.
- Menos ritual, mais execução: menos “nos encontramos, chegamos juntos, curtimos juntos”, mais “vamos à festa”.
O que se perde
Se o “esquenta” desaparece, o que deixamos de lado?
- A transição entre “vida normal” e “festa/convívio” — aquele momento de transição era socialmente importante.
- A conversa calma, sem urgência, que antecedia o evento.
- A memória e a história que advinham do “antes” — aquelas piadas, “lembram do esquenta da última vez?”.
- O clima que se construía em etapas, e não instantaneamente.
- Uma forma de sociabilidade que envolvia mais do que apenas presença — envolvia preparação, expectativa, encontro.
Qual o impacto social?
A morte — ou transformação — do “esquenta” tem implicações para como nos relacionamos:
- Redução da profundidade nos encontros: menos tempo para conexão prévia, mais foco no “momento”.
- Aumento da superficialidade: chegar direto ao evento pode significar menos espaço para “estar presente” antes.
- Diminuição dos rituais coletivos: os rituais ajudam a marcar “antes”, “durante” e “depois”. Sem eles, tudo vira “durante”.
- Afastamento de certo tempo comunitário: aquele tempo em que chegávamos, esperávamos juntos, conversávamos, riamos.
Será que morreu ou se transformou?
Não necessariamente é extinção total — talvez seja “mudança de fase”. Algumas pistas:
- O esquenta ainda pode existir, mas em formatos mais discretos ou internos (em casa, entre amigos próximos).
- As formas de sociabilidade mudaram: encontro digital prévio, “check-in” no feed, stories que já antecipam o encontro.
- Pode haver oportunidade de resgatar o ritual: reconhecer o valor de “chegar juntos”, “fazer juntos” antes da festa pode virar diferencial.
Conclusão
O “esquenta” era mais que um prelúdio de festa: era parte da sociabilidade, do estar junto com tempo, do preparo coletivo. Ao ver esse momento desaparecer ou se reduzir, percebemos uma perda de algo que era suave, mas significativo. Talvez valha a pena refletir sobre retomar esse ritual — ou reinventá-lo — pois nele havia mais do que beber ou dançar: havia, sobretudo, estar junto antes de estar.







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