A Epidemia Silenciosa dos Calmantes: A Luta de Rosângela e o Alerta Sobre a Dependência do Clonazepam no Brasil
Baseado em reportagem da Revista VEJA, edição de 31 de outubro de 2025
Um grito abafado pela medicação
Durante duas décadas, a paulistana Rosângela Moreira, 47 anos, travou uma batalha silenciosa contra a ansiedade e a depressão. Trabalhando na área de limpeza e enfrentando as agruras cotidianas, ela acreditou ter encontrado alívio em uma pequena pílula — o clonazepam, conhecido comercialmente como Rivotril.
Prescrito inicialmente para conter uma crise nervosa, o remédio logo se transformou em algo muito maior. Em pouco tempo, a dosagem aumentou, o uso tornou-se contínuo e, em dois anos, Rosângela consumia cerca de noventa comprimidos por dia. O que começou como um suporte médico evoluiu para uma dependência devastadora.
“A princípio, o remédio me ajudava, mas, com o tempo, em vez de um problema, me vi com dois: as doenças e a dependência”, contou à Revista Veja.
Quando o médico decidiu interromper a medicação, Rosângela não conseguiu parar. Passou a adquirir cartelas no mercado paralelo, mantendo o consumo de forma descontrolada. “Me tornei apática em relação ao mundo, queria dormir mais e sentir menos. E, de repente, comecei a tomar cada vez mais para ter aquele efeito”, recorda. A escalada terminou em uma tentativa de suicídio, felizmente frustrada, e serviu de alerta para um problema cada vez mais comum entre brasileiros: a dependência de benzodiazepínicos.
O retrato de uma epidemia invisível
Casos como o de Rosângela estão longe de ser isolados. O Brasil vive uma epidemia silenciosa de consumo de calmantes e sedativos. Dados citados pela Veja apontam que, apenas em 2024, foram comercializadas mais de 130 milhões de caixas de benzodiazepínicos — medicamentos usados para tratar ansiedade, insônia e outros distúrbios mentais. Dentre eles, 31 milhões de caixas continham clonazepam, consolidando o país como um dos maiores consumidores mundiais desse tipo de substância.
Esses fármacos, desenvolvidos nos anos 1960 como uma alternativa mais segura aos barbitúricos, foram inicialmente celebrados pela comunidade médica. Contudo, o uso prolongado revelou uma face sombria: tolerância, dependência, prejuízo cognitivo e agravamento dos sintomas emocionais.
Hoje, os especialistas alertam que a facilidade de prescrição e o acesso relativamente simples nas farmácias — muitas vezes sem o acompanhamento médico adequado — criaram um ambiente propício para o abuso. O fenômeno atinge todas as classes sociais, faixas etárias e gêneros, alimentado pela crença de que “uma pílula” pode silenciar a dor emocional.
A pandemia e a explosão do sofrimento mental
Os últimos anos intensificaram o quadro. Durante e após a pandemia da Covid-19, o número de brasileiros em busca de tratamentos para ansiedade, insônia e depressão cresceu de forma alarmante. O isolamento social, as perdas familiares e a insegurança econômica criaram terreno fértil para a medicalização da vida.
Nesse cenário, medicamentos como o clonazepam e o zolpidem tornaram-se companheiros constantes nas mesas de cabeceira. Embora indicados para uso pontual, muitos passaram a consumi-los de forma contínua, acreditando estar sob controle — até perceberem que o corpo e a mente já não funcionavam sem eles.
O psiquiatra entrevistado pela Veja destaca que o problema não está apenas no uso, mas na ausência de supervisão e acompanhamento psicológico. A medicação pode ser útil em crises agudas, mas nunca deve substituir terapias ou tratamentos de longo prazo. “O remédio não resolve o problema — apenas adia o enfrentamento da dor”, sintetiza.
Dependência química travestida de tratamento
A dependência de benzodiazepínicos é, em grande parte, invisível. Muitos pacientes continuam usando sob prescrição, sem perceber que já ultrapassaram os limites terapêuticos. Outros recorrem ao mercado ilegal quando o médico tenta interromper o tratamento.
Essa fronteira nebulosa entre o uso legítimo e o abuso cria uma armadilha: o paciente acredita estar “seguindo o tratamento”, quando, na verdade, já está preso ao ciclo da dependência. A cada aumento de dose, o corpo exige mais para produzir o mesmo efeito calmante, levando à tolerância química e à sensação de perda de controle.
O caso de Rosângela exemplifica o ponto crítico desse processo — o momento em que a busca por alívio se transforma em autodestruição. O remédio, que antes oferecia conforto, tornou-se uma prisão química.
A urgência de um novo olhar sobre a saúde mental
O fenômeno exposto pela Veja revela um problema estrutural: o modelo de atenção à saúde mental no Brasil ainda privilegia a medicação em detrimento do acolhimento psicológico e social.
Enquanto as consultas psiquiátricas permanecem breves e focadas na prescrição, o acompanhamento terapêutico contínuo ainda é inacessível para grande parte da população. O resultado é um país que consome calmantes em ritmo recorde — e que, paradoxalmente, vê crescer os índices de depressão, suicídio e automedicação.
Romper esse ciclo exige educação sobre saúde mental, políticas públicas eficazes e acesso a terapias não farmacológicas. É preciso resgatar a ideia de que o tratamento vai além da pílula — envolve cuidado, escuta e tempo.
Entre o sono e o despertar
A história de Rosângela Moreira ecoa como um chamado à consciência coletiva. Sua trajetória — marcada por dor, dependência e recomeço — simboliza a luta de milhares de brasileiros que buscam anestesiar o sofrimento sem perceber que se tornam reféns da própria medicação.
Em suas palavras, há uma lição amarga e urgente:
“Eu só queria dormir mais e sentir menos. Mas percebi que, para voltar a sentir, eu precisava primeiro acordar.”
Enquanto o Brasil continua entre as nações que mais consomem calmantes no mundo, cresce a necessidade de despertar — não apenas das longas noites sedadas, mas também da ilusão de que o alívio pode vir em comprimidos.
Referências:
- Revista VEJA — “A droga da dependência: os riscos do uso desmedido de remédios para acalmar a mente”, 31/10/2025.
- Revista VEJA Saúde — “De Rivotril a Zolpidem: quando esses remédios são indicados e os riscos do uso indiscriminado”, 2024.
- Veja Rio — “O perigo da tarja preta durante a pandemia”, coluna Manual de Sobrevivência no Século 21, 2023.







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