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10 anos de pesquisas revelam a urgência de proteger a fauna nas estradas

por | ago 1, 2025 | Fauna nas Estradas, NOTÍCIAS, SLIDER | 0 Comentários

Promovido pelo Instituto Sustentar, em parceria com a Verdelho Comunicação, o webinário “Fauna nas Estradas: Risco de Vida para Animais e Pessoas” reuniu, nos dias 13, 14 e 15 de maio, alguns dos maiores especialistas do Brasil para discutir os impactos das rodovias sobre a fauna silvestre e propor formas de mitigação para esse grave problema.

Divulgação

O evento contou com o apoio das seguintes instituições: ICAS – Instituto de Conservação de Animais Silvestres, UNEMAT – Universidade do Estado de Mato Grosso, REET Brasil – Rede de Especialistas em Ecologia de Transportes, Instituto SOS Pantanal, Observatório Rodovias Seguras para Todos e Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias (ABCR).

Um dos palestrantes do primeiro dia, no painel “Perdas e Danos”, foi Arnaud Desbiez, fundador do ICAS e líder do Projeto Tatu-Canastra, que falou sobre “Dez anos de estudos sobre colisões veiculares com fauna”.

Abaixo, o resumo de sua palestra:

Atropelamentos de fauna silvestre: o trabalho do ICAS e seus resultados

Arnaud Desbiez, fundador do ICAS e líder do Projeto Tatu-Canastra

Arnaud Desbiez apresentou o trabalho desenvolvido pelo Instituto de Conservação de Animais Silvestres (ICAS), fundado há cerca de 15 anos e voltado principalmente à conservação do tamanduá-bandeira e do tatu-canastra. Essas espécies são utilizadas como símbolo para promover a convivência entre seres humanos e a biodiversidade.

Durante sua fala, Desbiez destacou o projeto relacionado às colisões veiculares, iniciado em 2013 na BR-262, em parceria com a Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira (INCAB), coordenada por Patrícia Médici. O objetivo inicial era mensurar o número de atropelamentos de tatu-canastras e avaliar a dimensão do problema. O monitoramento foi realizado a cada 15 dias em 900 km de rodovias. Poucos tatu-canastras foram encontrados, mas o tamanduá-bandeira apareceu como a terceira espécie mais atropelada, o que levou à criação do projeto Bandeiras e Rodovias, em 2017.

Nos três anos seguintes, quase 85 mil km de rodovias foram percorridos, registrando-se aproximadamente 12.500 carcaças de animais de médio e grande porte. Cerca de 800 tamanduás-bandeira foram contabilizados, o que equivale a 19 atropelamentos a cada 100 km por ano. Estudos de persistência mostraram que 25% das carcaças desapareciam entre as visitas. Além disso, com radiotelemetria, descobriu-se que mais da metade dos tamanduás atropelados morriam longe da estrada, o que indica que os números reais podem ser ainda maiores — cerca de 40 tamanduás por 100 km por ano.

A pesquisa também revelou que as rodovias atuam como sumidouros populacionais. Um estudo com armadilhas fotográficas demonstrou que a abundância de tamanduás é significativamente menor nas proximidades das estradas. Necrópsias indicaram que os animais atropelados estavam saudáveis, o que derruba a ideia de que apenas indivíduos debilitados seriam vítimas.

Mais de 70 tamanduás foram monitorados com colares em três áreas diferentes, evidenciando que evitam cruzar rodovias pavimentadas, mas que eventualmente o fazem. Esses animais atravessam oito vezes mais cursos d’água do que rodovias, e quatro vezes mais rodovias não pavimentadas do que pavimentadas. Ainda assim, essas estradas de terra também causam grande impacto, conforme apontado pelos dados dos animais monitorados.

Outro ponto abordado foi o uso de passagens de fauna. Embora registradas por armadilhas fotográficas, os dados de telemetria revelaram que apenas 1% das travessias ocorrem por essas estruturas. Isso reforça a necessidade de cercamento para orientar os animais até as passagens.

Estudos de percepção com caminhoneiros mostraram que, mesmo conscientes do risco, motoristas dificilmente conseguem evitar colisões com fauna — o que transforma o tema também em uma questão de segurança viária. Por isso, usa-se cada vez mais o termo “colisão veicular”, em vez de “atropelamento”.

Com base nesses dados, o ICAS realizou análises de custo-benefício demonstrando que o cercamento de pontos críticos pode ter retorno financeiro em menos de 10 anos. Tais informações constam no Manual de Orientações Técnicas para Mitigação de Colisões Veiculares, liderado por Erika Saito, e adotado oficialmente pela AGESUL em Mato Grosso do Sul.

Arnaud também destacou iniciativas como o Fórum Rota Sustentável, promovido pelo Ministério Público, que reúne autoridades, ONGs e universidades mensalmente para discutir soluções. O Observatório Rodovias Seguras para Todos também foi mencionado como exemplo de articulação entre ONGs do Pantanal, com atuação estratégica para pressionar o poder público.

Por fim, Desbiez expressou um otimismo cauteloso: embora os desafios sejam grandes, os avanços dos últimos 10 anos mostram que conhecimento e diálogo estão cada vez mais presentes na agenda de prevenção às colisões com fauna nas rodovias brasileiras.

Para assistir à íntegra do primeiro dia do webinário Fauna nas Estradas, clique aqui.

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